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Título: Higiene Mental: Ideias que atravessaram o século XX

Autora(org): Maria Lúcia Boarini

Editora: EDUEM

Ano de Publicação: 2012

Prefácio: "Se me permitem iniciar por uma nota pessoal, este volume que o leitor tem agora em mãos evocou-me o impacto provocado, no então estudante de medicina e aspirante a psiquiatra, quando da publicação, na década de 1970, da obra de Jurandir Freire Costa (História da Psiquiatria no Brasil). Naquele livro, Costa lançava luz sobre a importante ação de setores dominantes da psiquiatria na primeira metade do século XX, apontando a sua forte presença no campo de produção e circulação das ideias hegemônicas formuladas então sobre o Brasil, os destinos da nacionalidade e sua população. Eram tempos de império do racismo científico, e nele despontava a atuação da Liga Brasileira de Higiene Mental, objeto central do seu estudo. Aquilo que fora até então apresentado como parte de uma história naturalizada e descontextualizada da psiquiatria (Foucault ainda era pouco conhecido por aqui), ganhava nova e aterradora perspectiva. O manto supostamente inviolável da ciência escondia vastos crimes da paz (conforme Basaglia). Desde aquela época, com o avanço das pesquisas no campo da saúde e sociedade, muita coisa foi produzida e pode vir á tona. Há um bom conjunto, ainda que produzido de modo esparso, de textos versando sobre o papel de dominação e controle social exercido por estes campos de saberes. Mesmo sob o risco de extrapolar o esperado de um prefaciador, cumpre indicar o peso do racismo científico, a partir do século XIX, fundamental para justificar as diferenças sociais numa ordem social pós-Revolução Francesa, e que serviu de base para o ideário nacional-socialista, mas não só para ele. Na Alemanha nazista, aproximadamente cem mil pacientes de instituições psiquiátricas foram exterminados, com base na então dominante ciência da eugenia. Esta trágica experiência pioneira, que contou com significativo apoio da medicina alemã da época, contribuiu para a expertise aplicada nos anos seguintes nos campos de extermínio. Este conjunto de ideias e práticas encontrou ressonância em nosso meio, como nos apontam os trabalhos aqui reunidos, enfocando o contexto histórico de surgimento das propostas higienistas e eugenistas no Brasil. Nesse contexto, o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Higienismo e o Eugenismo (GEPHE) da Universidade Estadual de Maringá, creio, é o único a se constituir e focar especificamente sobre este relevante campo das propostas do higienistas e eugênicas, que, como nos mostram os trabalhos reunidos em suas coletâneas, segue pertinente na discussão dos rumos e meandros das políticas sociais atuais. Foi com profundo interesse que me debrucei sobre este conjunto de textos, que contribuem e muito para uma leitura mais crítica das propostas e rumos de nossas ações no campo da saúde coletiva, bem como em outras áreas da sociedade. Não há dúvida de que esta obra tornar-se-á de leitura obrigatória para todos aqueles preocupados com a construção de uma sociedade mais democrática e igualitária, na qual o manto da ciência não sirva para perpetuar e caucionar ações e atitudes discriminatórias lesivas aos interesses e à dignidade de variados grupos e segmentos sociais. Mãos à obra, pois".

Alfredo Schechtman.